Manuel Querino (1851–1923): An Afro-Brazilian Pioneer in the Age of Scientific Racism. Edited by Sabrina Gledhill. Crediton, UK: Editora Funmilayo Publishing, 2021. Photographs. Figures. Appendix. Notes. Bibliographies. xxi, 196 pp. Paper, $9.99.
Durante muito tempo, Manuel Querino foi mais um intelectual negro obscurecido pela história. Contudo, um movimento ainda incipiente de trazer à luz a produção intelectual negra tornou favorável sua valorização e reconhecimento. Esse é talvez o maior mérito do livro Manuel Querino (1851–1923): An Afro-Brazilian Pioneer in the Age of Scientific Racism.
Além da própria autora, outros seis pesquisadores participam da obra, que contém um total de nove artigos nos quais são tratados diversos aspectos da atuação de Manuel Querino: o artista, o militante abolicionista e trabalhista, além do político e, finalmente, o pesquisador.
Manuel Querino nasceu em julho de 1851 na cidade de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, filho de um casal de negros nascidos livres no Brasil escravista. Chamado por alguns autores e autoras de “mulato”, fato é que, quando ele nasceu, negro era sinônimo de escravizado, e preto, de africano. Portanto, ele viveu em dois momentos marcantes no Brasil: a escravidão e o pós-abolição. Ainda menino, foi para a capital da Bahia viver aos cuidados de um tutor. Querino foi pintor, decorador, professor de desenho geométrico. Quando retornou da Guerra do Paraguai, em 1871, engajou-se na militância trabalhista e abolicionista. Foi além, assumindo cargos públicos na cidade de Salvador em 1890–1891 e, num segundo momento, em 1897–1899, quando concluiu sua atuação pública como vereador.
Esses dados biográficos são repetidamente apresentados em Manuel Querino. Tais informações são incialmente apresentadas já na introdução por Gledhill e aprofundadas no primeiro artigo, de autoria de E. Bradford Burns, e no terceiro artigo, “Journalist and Politician”, de Jorge Calmon, no qual fica evidente que Querino respondia às teses de inferioridade racial reivindicando acesso à educação, melhores condições de trabalho e abolição. Aliás, foi a produção intelectual de Querino na época do racismo científico que, mesmo antes de Gilberto Freyre, respondeu às teses contemporâneas sobre a degeneração da população causada pela mistura racial e sobre a inferioridade racial da população negra.
A disputa solitária de Querino contra a elite intelectual da sua época é também tema do segundo capítulo, “From Soldiers to Scholars: Manuel Querino’s Contribution to Black Vindicationism”, de Sabrina Gledhill. No texto, a autora situa a própria natureza das teses de Querino como motivos do seu apagamento no campo da intelectualidade, sendo no máximo ele reconhecido como um folclorista, informante, colecionador, mas não como intelectual, a despeito das suas pesquisas. No quarto capítulo, Gledhill volta a tratar da militância de Querino, mas dessa vez como liderança trabalhista ainda no período escravista. Além disso, o engajamento no movimento abolicionista, timidamente conhecido, a exemplo de sua obra, evidencia como seu ativismo fugia dos padrões do abolicionismo de elite.
No quinto capítulo, “First Historian of Bahian Art”, Eliane Nunes aborda a relação de Querino com as artes, tanto como artista quanto como pesquisador. A autora defende que foi mais como pesquisador das artes, e não necessariamente como artista, que Querino deu as suas maiores contribuições, sobretudo devido ao seu esforço de tirar artistas negros da obscuridade. Nunes apresenta uma outra questão, que diz respeito ao fato de que, na obra Artistas bahianos, publicada em 1909, a identidade racial dos artistas negros não é informada, o que ele só faz quase uma dé cada depois. Consideramos que seja possível que Querino tenha utilizado outro método para atingir um mesmo fim, isto é , buscou valorizar os feitos antes da identidade racial das pessoas que pesquisou.
Como forma de confrontar o racismo científico do seu tempo, Manuel Querino também inovou ao fazer um uso diferente das fotografias de pessoas africanas. De acordo com a autora do sexto capítulo, Christianne Vasconcellos, ao fazer uso das imagens como fonte de pesquisa histórica, esse intelectual usou imagens de africanos e africanas para demonstrar a diversidade das nações que viviam na Bahia, além de afirmar a sofisticação dos trajes sagrados com os quais se vestiam as mulheres da religião de matriz africana, o candomblé. Esse sentimento de valorizaçãoe aprec¸ o pela herança cultural africana na Bahia reaparece no oitavo capítulo, de Jeferson Bacelar e Carlos Alberto Dória, “Creator of Bahian Folk Cuisine”, que demonstra de que maneira Querino utilizou a culinária baiana como metáfora para a formação da cultura nacional. Assim ele demonstrava, mais uma vez, como os africanos acabaram produzindo uma culinária diferente, específica e, portanto, afro-baiana.
A obra finda com mais um artigo da organizadora, Sabrina Gledhill – “Reflections on Portraits of Manuel Querino” –, que discute os significados subliminares nas fotografias de Querino. Produzidas no início do século XX, as fotografias foram utilizadas em homenagens póstumas e demonstram a preocupação de Querino em definir a si próprio através da fotografia, algo comum na diáspora negra, já que homens e mulheres, quando podiam, buscavam construir uma memória fotográfica para si próprios como sujeitos altivos, livres, dotados de coragem, respeitabilidade e autoridade intelectual. Para a autora, o retrato desse intelectual exposto na galeria de honra do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia em 1928 é um exemplo desse sentimento.
A partir de Manuel Querino, portanto, é possível conhecer, em linhas gerais, o pensamento de um dos maiores intelectuais brasileiros. Traços do seu olhar apurado de cientista afro-baiano ficam nítidos nas suas escolhas, métodos e olhar cuidadoso sobre um Brasil afro-brasileiro. Aquilo que hoje nos parece óbvio foi, no seu tempo, sua maior militância.
Luciana Brito, “Manuel Querino (1851-1923): An Afro-Brazilian Pioneer in the Age of Scientific Racism,” in Hispanic American Historical Review vol. 104, no. 3, pp. 525-527. Copyright 2024, Duke University Press. All rights reserved. Republished by permission of the copyright holder, and the Publisher.
doi 10.1215/00182168-11189722
Resenhas dos Nossos Títulos
“Precursor das Ações Afirmativas”
Marcos Rodrigues
Mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA
ORCID: 0000 0002-6662-2350
Resenha do livro GLEDHILL, Sabrina (org.). (Re)apresentando Manuel Querino – 1851/1923: um pioneiro afro-brasileiro nos tempos do racismo científico. Salvador: Sagga editora, 2021. 194 p.
Palavras-chave: Ações afirmativas; Manuel Querino; Racismo científico.
O livro organizado pela pesquisadora Sabrina Gledhill nos apresenta ou reapresenta a trajetória do intelectual e ativista baiano Manuel Querino (1851-1923), um pioneiro na construção do discurso civilizatório afro-brasileiro, nos tempos do racismo científico, conforme anunciado na capa. Nascido em Santo Amaro (BA), ainda no período colonial, Querino certamente pode ser considerado o precursor da luta por ações afirmativas da população negra, com base nos lugares que ocupou como educador, sindicalista, político, etnólogo e escritor.
Era uma época em que a teoria evolucionista fazia valer a classificação da inferioridade e a perspectiva de desaparecimento da população negra, em favor da imigração europeia e da cultura do branqueamento, e então surgia o pioneiro em várias linhas de frente como a etnologia, a antropologia da alimentação, a história da arte e a luta por ações afirmativas. São qualidades que marcam a trajetória de Manuel Querino nesse livro que também traz a participação dos autores Jorge Calmon, Eliane Nunes, Christianne Vasconcellos, Jeferson Bacelar e Carlos Dória.
Com o objetivo de apresentar uma análise biográfica em várias vertentes contra um marco de conceitos e definições em torno da negritude sob uma perspectiva evolucionista, o livro foi elaborado a partir da visão de pesquisadores(as) da política, da história, da antropologia e das ciências sociais que se debruçaram a iluminar o legado do baiano Manuel Querino. Também a coletânea resulta de um movimento articulado entre humanistas de diferentes gerações, o que certamente contribui em grande estilo para a reapresentação do personagem em foco com sua trajetória multifacetada.
A construção de um discurso implica antes em transgredir, desconstruir e selecionar o paradigma ou categoria de pensamento a ser trilhado. E essa investida de Sabrina Gledhill já vem desde o livro anterior Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino e Booker Washington (Edufba, 2020) e de sua participação em outras coletâneas, na intenção de tornar visíveis intelectuais ativistas do mundo da diáspora africana. Agora, de modo muito feliz, escreve e anexa narrativas de autores convidados para fazer valer o lugar de Manuel Querino como sujeito político do seu tempo, cujo protagonismo deve ser revisto.
Mas, que lugar ocupa Manuel Querino na história da cultura baiana? Certamente, nesse livro são várias pistas a seguir como resposta a partir do ângulo de cada autor. Em cada área de atuação, uma construção que deixou sua marca em nossos dias. Ainda que não tenha passado pela condição de escravizado, Querino parece ter construído um discurso público sobre a perspectiva do negro em uma sociedade que se transformava ao perder seu ponto de sustentação econômica, a cultura do cativeiro.
Brasilianista inglesa, tradutora premiada, com estudos realizados nos Estados Unidos e no Brasil, a pesquisadora Sabrina Gledhill revela no texto de apresentação que seu interesse por Querino começou na primeira metade dos anos 1980, quando buscava um tema de pesquisa na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA). Ao expor as referências de Manuel Querino, concentra na sua bagagem um olhar atento sobre o percurso de um homem controverso que viveu durante a última fase da era colonial e, ao lado dos desdobramentos da escravidão, no início do século 20. A autora define Querino como uma voz solitária, “um negro que conquistou um lugar no meio da elite branca, tentou utilizar sua posição para divulgar a mensagem que poucas pessoas de sua cor podiam ou estavam dispostas a proferir”. (p. 18)
O volume tem prefácio do historiador e professor Jaime Nascimento, que chama atenção para importância de Manuel Querino, cujo caminho seria improvável para um negro do século 19. E mais, com muita propriedade, o evidencia como antropólogo autodidata no seu lugar de precursor dos estudos civilizatórios da cultura africana na formação social brasileira e um dos principais pesquisadores da História da Bahia.
Poucos brasileiros ocuparam uma carreira ilustrada como Manuel Querino, agora reapresentado a todos aqueles que transitam na área dos estudos sociais e ainda o estranham quando mencionado. A importância de revitalizar esta memória advém de ser pioneiro na contramão do racismo científico ditado pela medicina legal, de reforçar a influência africana na história nacional, de inaugurar a historicidade da arte na Bahia e as pesquisas em antropologia da alimentação.
Dos oito capítulos que compõem o volume, dois deles se destacam. O capítulo 5, com abordagem sobre o uso de fotografias no estudo etnográfico, é um reflexo direto sobre essa discussão atualmente muito em curso na antropologia. A autora Christianne Vasconcellos expõe a antropológica de Manuel Querino seus estudos etnográficos sobre os africanos na Bahia com um texto que seduz o leitor a retomar o caminho de (re)conhece-lo como via de entendimento do nosso processo histórico.
O capitulo 7 é a chave para entender a origem do que hoje se chama de comida baiana. Os pesquisadores convidados Jeferson Bacelar e Carlos Dória revelam o pioneiro dos estudos da culinária baiana, segmento que deu corpo à antropologia da alimentação. Desse modo, vale lembrar que o produto turístico difundido hoje em grande escala veio das investigações feitas por Manuel Querino em tempos sombrios marcados pelo rigor da cultura eurocêntrica de um mercado intelectual colonizador.
Após uma leitura como essa, não é difícil refletir como a diáspora africana nas Américas e no Caribe esconde milhares de valores humanos que lutaram e foram protagonistas na superação da adversidade e pela eficácia das ações afirmativas pós-escravidão. O discurso civilizatório formador do nosso pensamento sempre a partir do europeu colonizador, com o reforço tentacular do racismo científico, já mostrava suas contradições desde então. Daí, o mérito das narrativas aqui reunidas ao mergulharem na contramão da invisibilidade e trazer à luz o perfil de Manuel Querino.
A coletânea parece atingir um objetivo importante. Deixa no leitor a vontade de buscar ou rever a obra de Manuel Querino e adotá-lo entre as principais fontes em discussões ou pesquisas que estarão por vir quando o assunto for cultura baiana. A objetividade das narrativas conduz a uma esfera do conhecimento até então negligenciada pelo pensamento canônico dos “clássicos” intelectuais de outrora. Com isso, as gerações recentes agradecem essa atitude de reparação em favor de um legado histórico e cultural pulsante, sabidamente ignorado.
Garimpar a vida de Querino certamente não sugere muita facilidade para um trabalho de caráter científico. As fontes consultadas e os autores convidados para essa publicação sinalizam a extensão da atividade em torno de um personagem que abriu caminho dos estudos etnológicos, históricos e artísticos voltados à africanidade e suas vertentes na diáspora. Por isso, o livro também demonstra ser um exemplo de responsabilidade intelectual.

