Unsung Heroes: The Legacy of Manuel Querino and Beyond

The next addition to the
Unsung Heroes series

I launched the Unsung Heroes in Black History series without realising it was a series at all. It started with an anthology on Manuel Querino, the Afro-Brazilian scholar I have been studying and writing about since the 1980s. I realised that Querino’s activities were so varied, covering a gamut of specialisms, that it is impossible for one person to write authoritatively about them all. Fortunately, I had access to writings by E. Bradford Burns (the first bibliographic essay on Querino published in English), Jeferson Bacelar and Carlos Doria (on his pioneering study of Bahian cuisine), Eliane Nunes (on his contributions to art history), Jorge Calmon (on his involvement in labour mobilisation and politics), and Christianne Vasconcellos (on his use of photographs in anthropology) to add to essays of my own that had appeared in Brazilian peer-reviewed journals and books over the years. The result was a compendium that has been published in Portuguese (without Burns’s essay, due to translation right issues) and English, and has been very well received.

That book was published in 2021, during the Covid pandemic. Lockdown was a wonderful opportunity to focus on organising and translating the anthology. In the years since, I have worked on translating and updating a monograph based on my PhD thesis, which has been in peer review since September of last year. The Unsung Heroes series began with the second volume, which I first approached as “something to do” while awaiting the verdict on my own book. It all started with Querino, naturally. I had originally intended to publish my translation of one of his most significant works (for me), O colono preto como fator da civilização brasileira, translated as The African Contribution to Brazilian Civilisation.

First, I was intrigued by parallels between Querino’s story and that of Arthur (born Arturo) Schomburg. Then, I started wondering which works by W. E. B. Du Bois, Carter G. Woodson, Booker T. Washington, and other Black thinkers were comparable to Querino’s essay, which demands recognition for the achievements of Africans and their descendants. Instead of being seen as passive sources of manual labour, Querino asserted that they contributed knowledge they brought from their homelands, like mining and metalworking, as well as helping protect Brazil’s territorial integrity as soldiers. He also emphasised their ingenuity and courage in breaking free from the bonds of slavery to form their own communities, known as quilombos in Brazil.

That initial curiosity led to a gold mine of works on Black soldiers and maroons, which I added to Querino’s essay to produce The Need for Heroes: Black Intellectuals Dig Up their Past, published in June 2024. I realised that the concept of Unsung Heroes, inspired by the title of Elizabeth Ross Haynes’s book of children’s stories, extended to the anthology on Querino. He was well known in life, having achieved such renown in Brazil that several newspapers published his obituary in his home state (Bahia), Rio de Janeiro, and other parts of the country. Representatives of trade unions and academia attended his funeral, which was also covered by the press. But since the 1930s, he had been gradually forgotten, and if remembered at all, thought of as a lightweight scholar, the minor author of a few pamphlets, and even illiterate. There seemed to have been a deliberate effort on the part of the “hegemonic narrative” to rewrite his story as that of a poor, ill-educated Black man who made a stab at anthropology but didn’t quite succeed. This disinformation was convenient because he already contradicted the commonly held notion that all Blacks in Brazil were enslaved until Abolition in 1888, and since then had been nothing but vagrants, thieves, and scoundrels – an image still maintained in the media.

While the eminent Brazilian historian Flavio Gomes was writing the afterword for The Need for Heroes (it was worth the wait), I started putting together works that hadn’t quite fit in that collection and adding many more. Once again, I started with Querino, who is considered the Brazilian Vasari because his pioneering works on the history of art in Bahia were based on biographies of artists. The result was Heroes Sung and Unsung: Black Artists in World History, a compendium of works by Arthur Schomburg, W. E. B. Du Bois, Booker T. Washington, Benjamin Brawley, James M. Trotter, and others, with a foreword and afterword by two brilliant contemporary artists, respectively Mark Steven Greenfield and Ayrson Heraclito. It is due for publication in September 2024. In the meantime, Manuel Querino (1851-1923): An Afro-Brazilian Pioneer in the Age of Scientific Racism and The Need for Heroes are available in paperback, hardcover, and Kindle e-book editions through Amazon and other online booksellers.

Sabrina Gledhill

O Precursor das Ações Afirmativas

Marcos Rodrigues

Mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA

ORCID: 0000 0002-6662-2350

Resenha do livro GLEDHILL, Sabrina (org.). (Re)apresentando Manuel Querino – 1851/1923: um pioneiro afro-brasileiro nos tempos do racismo científico. Salvador: Sagga editora, 2021. 194 p.

Palavras-chave: Ações afirmativas; Manuel Querino; Racismo científico.

O livro organizado pela pesquisadora Sabrina Gledhill nos apresenta ou reapresenta a trajetória do intelectual e ativista baiano Manuel Querino (1851-1923), um pioneiro na construção do discurso civilizatório afro-brasileiro, nos tempos do racismo científico, conforme anunciado na capa. Nascido em Santo Amaro (BA), ainda no período colonial, Querino certamente pode ser considerado o precursor da luta por ações afirmativas da população negra, com base nos lugares que ocupou como educador, sindicalista, político, etnólogo e escritor.

Era uma época em que a teoria evolucionista fazia valer a classificação da inferioridade e a perspectiva de desaparecimento da população negra, em favor da imigração europeia e da cultura do branqueamento, e então surgia o pioneiro em várias linhas de frente como a etnologia, a antropologia da alimentação, a história da arte e a luta por ações afirmativas. São qualidades que marcam a trajetória de Manuel Querino nesse livro que também traz a participação dos autores Jorge Calmon, Eliane Nunes, Christianne Vasconcellos, Jeferson Bacelar e Carlos Dória.

Com o objetivo de apresentar uma análise biográfica em várias vertentes contra um marco de conceitos e definições em torno da negritude sob uma perspectiva evolucionista, o livro foi elaborado a partir da visão de pesquisadores(as) da política, da história, da antropologia e das ciências sociais que se debruçaram a iluminar o legado do baiano Manuel Querino. Também a coletânea resulta de um movimento articulado entre humanistas de diferentes gerações, o que certamente contribui em grande estilo para a reapresentação do personagem em foco com sua trajetória multifacetada.

A construção de um discurso implica antes em transgredir, desconstruir e selecionar o paradigma ou categoria de pensamento a ser trilhado. E essa investida de Sabrina Gledhill já vem desde o livro anterior Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino e Booker Washington (Edufba, 2020) e de sua participação em outras coletâneas, na intenção de tornar visíveis intelectuais ativistas do mundo da diáspora africana. Agora, de modo muito feliz, escreve e anexa narrativas de autores convidados para fazer valer o lugar de Manuel Querino como sujeito político do seu tempo, cujo protagonismo deve ser revisto.

Mas, que lugar ocupa Manuel Querino na história da cultura baiana? Certamente, nesse livro são várias pistas a seguir como resposta a partir do ângulo de cada autor. Em cada área de atuação, uma construção que deixou sua marca em nossos dias. Ainda que não tenha passado pela condição de escravizado, Querino parece ter construído um discurso público sobre a perspectiva do negro em uma sociedade que se transformava ao perder seu ponto de sustentação econômica, a cultura do cativeiro.

Brasilianista inglesa, tradutora premiada, com estudos realizados nos Estados Unidos e no Brasil, a pesquisadora Sabrina Gledhill revela no texto de apresentação que seu interesse por Querino começou na primeira metade dos anos 1980, quando buscava um tema de pesquisa na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA). Ao expor as referências de Manuel Querino, concentra na sua bagagem um olhar atento sobre o percurso de um homem controverso que viveu durante a última fase da era colonial e, ao lado dos desdobramentos da escravidão, no início do século 20. A autora define Querino como uma voz solitária, “um negro que conquistou um lugar no meio da elite branca, tentou utilizar sua posição para divulgar a mensagem que poucas pessoas de sua cor podiam ou estavam dispostas a proferir”. (p. 18)

O volume tem prefácio do historiador e professor Jaime Nascimento, que chama atenção para importância de Manuel Querino, cujo caminho seria improvável para um negro do século 19. E mais, com muita propriedade, o evidencia como antropólogo autodidata no seu lugar de precursor dos estudos civilizatórios da cultura africana na formação social brasileira e um dos principais pesquisadores da História da Bahia.

Poucos brasileiros ocuparam uma carreira ilustrada como Manuel Querino, agora reapresentado a todos aqueles que transitam na área dos estudos sociais e ainda o estranham quando mencionado. A importância de revitalizar esta memória advém de ser pioneiro na contramão do racismo científico ditado pela medicina legal, de reforçar a influência africana na história nacional, de inaugurar a historicidade da arte na Bahia e as pesquisas em antropologia da alimentação.

Dos oito capítulos que compõem o volume, dois deles se destacam. O capítulo 5, com abordagem sobre o uso de fotografias no estudo etnográfico, é um reflexo direto sobre essa discussão atualmente muito em curso na antropologia. A autora Christianne Vasconcellos expõe a antropológica de Manuel Querino seus estudos etnográficos sobre os africanos na Bahia com um texto que seduz o leitor a retomar o caminho de (re)conhece-lo como via de entendimento do nosso processo histórico.

O capitulo 7 é a chave para entender a origem do que hoje se chama de comida baiana. Os pesquisadores convidados Jeferson Bacelar e Carlos Dória revelam o pioneiro dos estudos da culinária baiana, segmento que deu corpo à antropologia da alimentação. Desse modo, vale lembrar que o produto turístico difundido hoje em grande escala veio das investigações feitas por Manuel Querino em tempos sombrios marcados pelo rigor da cultura eurocêntrica de um mercado intelectual colonizador.

Após uma leitura como essa, não é difícil refletir como a diáspora africana nas Américas e no Caribe esconde milhares de valores humanos que lutaram e foram protagonistas na superação da adversidade e pela eficácia das ações afirmativas pós-escravidão. O discurso civilizatório formador do nosso pensamento sempre a partir do europeu colonizador, com o reforço tentacular do racismo científico, já mostrava suas contradições desde então. Daí, o mérito das narrativas aqui reunidas ao mergulharem na contramão da invisibilidade e trazer à luz o perfil de Manuel Querino.

A coletânea parece atingir um objetivo importante. Deixa no leitor a vontade de buscar ou rever a obra de Manuel Querino e adotá-lo entre as principais fontes em discussões ou pesquisas que estarão por vir quando o assunto for cultura baiana. A objetividade das narrativas conduz a uma esfera do conhecimento até então negligenciada pelo pensamento canônico dos “clássicos” intelectuais de outrora. Com isso, as gerações recentes agradecem essa atitude de reparação em favor de um legado histórico e cultural pulsante, sabidamente ignorado.

Garimpar a vida de Querino certamente não sugere muita facilidade para um trabalho de caráter científico. As fontes consultadas e os autores convidados para essa publicação sinalizam a extensão da atividade em torno de um personagem que abriu caminho dos estudos etnológicos, históricos e artísticos voltados à africanidade e suas vertentes na diáspora. Por isso, o livro também demonstra ser um exemplo de responsabilidade intelectual.