Textos de Fôlego

(Re)apresentando Manuel Querino: A longa história de um trabalho de Sísifo

Sabrina Gledhill

Apresentação para o BRASA 26. Painel “Gente de cor no Brasil (séculos XVIII e XIX) I: trajetórias e projetos políticos” 7 de julho das 14:15 às 16:00, Pavilhão Glauber Rocha

Manuel Raymundo Querino nasceu em 28 de julho de 1851, na cidade de Santo Amaro, um centro produtor de açúcar na província (atual estado) da Bahia. Órfão aos quatro anos de idade devido a uma epidemia de cólera que assolou a região, foi levado para Salvador, então capital da província. Há dúvidas sobre o parentesco de Querino. Segundo a biografia oficial da autoria de J. Teixeira Barros, publicada no prefácio de A Bahia de outrora, eram seus pais o carpinteiro José Joaquim dos Santos Querino e Luzia da Rocha Pita – ambos negros livres. Contudo, uma anotação manuscrita em sua certidão de óbito introduz uma lacuna significativa em sua genealogia ao registar que ele seria “filho ilegítimo de Maria Adalgisa”. Este é o único vestígio documental que temos sobre sua mãe biológica, o que suscita interrogações não apenas sobre a identidade de seu pai, mas também sobre a condição social de Maria Adalgisa — se seria uma mulher livre, liberta ou escravizada.

Depois de passar algum tempo no orfanato de São Joaquim, na Cidade Baixa, tornou-se pupilo de Manuel Correia Garcia (1815–1890), um educador, jornalista e político influente. Correia Garcia ensinou o jovem a ler e escrever e, mais tarde, o colocou como aprendiz de pintor e decorador. Futuramente, Querino também se beneficiaria da rede política e social de seu tutor.

O fato de ser alfabetizado pode ter salvado sua vida, pois o poupou de ir para a frente de batalha como recruta durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870). Também conhecida como Guerra do Paraguai, permanece o conflito mais sangrento da história da América do Sul. Em vez de ser enviado para a frente, Querino juntou-se à “escrita” (divisão clerical) de seu batalhão no Rio de Janeiro, então capital do país.

Ele provavelmente ainda estava no Rio quando o Manifesto Republicano foi assinado pela primeira vez em 1870, lançando o movimento político que apoiava uma república presidencialista ou parlamentarista. (Um republicano fervoroso, ele próprio assinaria o manifesto em 1º de agosto de 1878.)

Querino foi desmobilizado em 1870 com a ajuda de Manuel Pinto de Sousa Dantas (1831–1894), um político influente ligado a Correia García. Depois de retornar à Bahia, trabalhou como pintor-decorador durante o dia e estudou à noite. Foi um dos alunos fundadores do Liceu de Artes e Ofícios e da Academia de Belas Artes. Atualmente a Escola de Belas Artes da UFBa, a academia foi fundada por outro amigo de Correia García, o artista espanhol Miguel Navarro y Cañizares (1834–1913), que havia sido professor e mentor de Querino desde seu tempo no Liceu.

Querino se certificou como professor de Desenho Geométrico, mas provavelmente não concluiu a graduação em Arquitetura na Academia. Uma das razões pode ter sido a falta de financiamento das instituições de ensino pela República instaurada em 1889. Segundo Querino, ele não fez o exame do terceiro ano porque não havia professores que pudessem lecionar a disciplina de resistência dos materiais e estabilidade das edificações.

Suas atividades como líder sindical começaram em 1874, quando ajudou a organizar a Liga Operária Baiana, defendendo os direitos dos trabalhadores livres – muitos deles negros e pardos – numa época em que mais de um milhão de pessoas ainda eram escravizadas. A liga originalmente pretendia entrar na política como o primeiro Partido Trabalhista, mas a reação da elite – principalmente dos industriais – intimidou a liderança, que a renomeou para Centro Operário da Bahia. A partir de então, o foco passou a ser a solidariedade operária e a educação profissional, que Querino apoiava fortemente. Por acreditar no valor da formação profissional — com base em sua própria experiência —, Querino ficou decepcionado quando a República que ele tanto defendera começou a desmantelar os programas de educação profissional disponíveis durante o Império.

O trabalho de Querino como abolicionista incluiu a fundação e edição de um jornal, A Província, como veículo para o movimento em 1887. O jornal deixou de ser publicado quando a escravidão foi abolida em 1888 (o Brasil foi o último país das Américas a fazê-lo). Em 1892, ele fundou outro jornal, O Trabalho, com foco na formação e educação dos ex-escravizados que estavam entrando no mercado de trabalho livre.

De 1888 a 1916, Querino foi funcionário público, trabalhando para os departamentos de Obras Públicas e Agricultura. Entre outras atividades, ele projetou os bondes da cidade de Salvador. Em 1890, ele iniciou seu primeiro mandato como o primeiro vereador negro da cidade, continuando a servir um segundo mandato entre 1897 e 1899, quando se aposentou da política. Embora estivesse desapontado com o fim de sua carreira política, sua ascensão à fama estava apenas começando.

Querino começou a publicar obras sobre vários temas, começando com um livro didático de desenho geométrico em 1903. Reunindo artigos de jornal que escreveu acerca da história da arte, ele publicou dois livros, Artistas baianos (Artistas baianos) e As artes na Bahia (As artes na Bahia) em 1909. Por causa dessas obras, ele é frequentemente comparado a Giorgio Vasari (1511-1574), o pintor e biógrafo italiano da Renascença que baseou seu trabalho inovador sobre história da arte nas vidas dos artistas.

Ele se consolidou como folclorista com mais dois livros, Bailes pastoris (Danças de Pastores), referente às festividades da Epifania ou dos Três Reis Magos, e uma de suas obras mais conhecidas, A Bahia de Outrora (A Bahia de Outrora), uma coletânea de ensaios sobre os costumes baianos, incluindo o folclore afro-brasileiro.

Para muitos estudiosos, as conquistas mais notáveis ​​de Querino foram a publicação de duas obras sobre a história negra, A raça africana e seus costumes na Bahia e O colono preto como fator da civilização brasileira, que ele apresentou no VI Congresso Geográfico Brasileiro em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1918.

Querino já foi considerado um dos pais da antropologia brasileira, ao lado de Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). No entanto, em nítido contraste com Querino, Nina Rodrigues acreditava que os negros impediam o progresso do Brasil e defendia o “embranquecimento” da população por meio do incentivo à imigração europeia. Querino ainda é considerado o primeiro intelectual negro a defender o papel dos africanos e seus descendentes no desenvolvimento econômico do Brasil, enfatizando as habilidades que os africanos escravizados trouxeram consigo de suas terras natais. Querino também destacou o papel dos soldados negros na manutenção da integridade territorial da nação.

Querino morreu de “impaludismo”, mais conhecido como malária, em 14 de fevereiro de 1923. Tudo indica que sua morte foi inesperada. Representantes do movimento operário, da sociedade folclórica e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), do qual foi membro fundador, compareceram ao seu funeral na Quinta dos Lázaros. Vários jornais brasileiros anunciaram sua morte e publicaram obituários. Embora tenha sido inicialmente enterrado em um cemitério usado pela população de baixa renda de Salvador, seus restos mortais foram posteriormente trasladados para a sacristia da Igreja de Nossa Senhora dos Homens Pretos — atualmente no Centro Histórico — onde jazem até hoje.

Por muitos anos, Querino foi mais conhecido por seu livro sobre a culinária baiana, A arte culinária na Bahia, publicado postumamente em 1928. Naquele mesmo ano, o IGHB realizou uma cerimônia para revelar seu retrato, juntamente com o de Nina Rodrigues.

Em 1938, o psiquiatra brasileiro Arthur Ramos (1903–1949) organizou uma coletânea das obras de Querino sobre cultura e história africanas intitulada Costumes africanos no Brasil, que passou por várias edições.

Nas décadas seguintes, Querino perdeu o prestígio e caiu no ostracismo no meio acadêmico. Uma possível razão para isso foi a publicação póstuma da obra seminal de Nina Rodrigues sobre cultura africana, Os africanos no Brasil, em 1932. Para muitos, essa obra relegou a de Querino para segundo plano, embora A raça africana e os seus costumes na Bahia tenha sido escrita a partir da perspectiva de um observador participante negro. Outro fator significativo na rejeição de Querino pela academia foi uma acusação de plágio feita pelo historiador de arte de origem alemã Carlos Ott (1908–1997), que acusou Querino de usar um manuscrito anônimo de dezesseis páginas em Artistas baianos sem citar a fonte.

Estudos mais recentes apontaram que o preconceito racial esteve por trás de muitos esforços para desacreditar Querino. O historiador de arte Luiz Alberto Ribeiro Freire defendeu o afro-brasileiro e o aclamou como um dos três pioneiros da história da arte baiana, ao lado de Marieta Alves e Carlos Ott.

Desde os anos 90, vários estudiosos também têm trabalhado ativamente para reabilitar a reputação de Querino e garantir que ele não seja vítima do apagamento histórico, incluindo Maria das Graças de Andrade Leal, Wlamyra de Albuquerque, Jaime Nascimento e o finado Jeferson Bacelar. Seus esforços incluem a publicação de biografias, antologias e novas edições de sua obra, além de estudos sobre sua contribuição para a antropologia dos hábitos alimentares. Em 2014, Luiz Freire organizou um dicionário online de história da arte em homenagem a Querino.

Em 2020, a Edufba lançou a edição em português de meu livro Travessias no Atlântico Negro. Baseado na minha tese de doutorado, defendida em 2014 sob a supervisão de Jeferson Bacelar, compara as realidades racialistas do Brasil e dos Estados Unidos através das figuras de Querino e Booker T. Washington. O ano 2020 também viu o lançamento de Manuel Querino: criador da culinária popular baiana, da autoria de Jeferson Bacelar e Carlos Dória.

  Em 2021, organizei duas edições de uma antologia sobre Querino, uma em inglês e outra em português. Em 2023, um documentário sobre a vida e a obra de Querino dirigido por minha filha, a videomaker, diretora e roteirista Isis Gledhill marcou o centenário de seu falecimento.

Nesse mesmo ano, saiu um artigo sobre Querino na revista Bérose. De minha autoria, intitulado “A Pioneering Afro-Brazilian Ethnologist:The Life and Work of Manuel Querino”, argumenta contra a visão que ser “auto-didata” é sinônimo de analfabeto. Além do mais, Querino teve uma formação em linhas europeias, tendo estudado no Liceu de Artes e Ofícios e se formado na Academia de Belas Artes. Dois anos depois, este artigo foi seguido por outro, desta vez em português e inglês, da autoria de Mariana Ramos de Morais, também publicado pela Bérose. Intitulado “Antropologia afrorreligiosa na encruzilhada: por outras histórias da disciplina no Brasil”, cita meu trabalho e reafirma a relevância do trabalho de Querino no campo da antropologia.

O ano 2025 também viu o lançamento de uma edição revista e ampliada de Manuel Querino: entre letras e lutas, de Maria das Graças de Andrade Leal, publicada pela Sagga, e a edição em inglês do meu livro Travessias, intitulado Black Atlantic Crossings (Funmilayo). Nesse ano, fui convidada a contribuir um verbete sobre Querino para a enciclopédia South American History since Independence, organizada por Micheal Carver, que será editado pela Bloomsbury (data a ser definida). O nome dele não estava na lista de verbetes propostos, mas aceitaram minha sugestão, o que indica que ainda há interesse por Querino lá fora.

Representando o futuro da “Querinologia”, temos pesquisadores como Fernando Filho, que elegeu o ilustre santamarense como o enfoque de sua tese de doutorado na USP.

Infelizmente, ainda observamos tanto o apagamento quanto a disseminação de desinformação (ou fake news) sobre Querino. Em alguns casos, seu nome sequer é citado; em outros, ele aparece apenas em menções superficiais – ainda deixado de lado em favor de Nina Rodrigues em pleno século XXI. Há ainda quem passe a impressão de que ele nada publicou em vida (como se tivesse se aposentado definitivamente e se retirado para a sua chácara no Matatu depois de deixar a política), ou de que quase toda a sua obra era póstuma — um equívoco que a própria fortuna crítica de Querino desmente.

Já que o futuro é a IA, vale uma alerta sobre a deturpação e a desinformação fornecidas pelo Gemini quando pedi que me lembrasse de alguns títulos sobre Querino – ou que o mencionassem. Além de errar o subtítulo de um livro meu, afirmou que o livro The Brazil Reader, organizado por Robert M. Levine e John J. Crocitti, continha a tradução de um texto de Querino. Tendo encontrado uma edição em conta na Amazon, o adquiri. Verifiquei que, além de não conter o texto em questão, o nome de Querino sequer aparece no índice remissivo. Quando pedi confirmação do Gemini, este respondeu: “A obra incluída é “The African as Colonist” (uma tradução de um excerto de seu ensaio “O colono preto como fator de civilização brasileira”). Ela aparece nas páginas 184–190 da edição de 1999”. Nada disso é verdade. Quando informei o Gemini do erro, voltou com uma correção. O texto estaria na segunda edição de 2019. Verifiquei imediatamente que esta informação também era falsa. Eis a resposta:

Você tem toda a razão e peço sinceras desculpas por insistir em uma informação incorreta. De fato, o ensaio incluído é o de Nina Rodrigues (“The Africans in Brazil”) [na verdade, As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, traduzido como The Human Races], enquanto Querino é totalmente omitido tanto na edição original quanto na ampliada.

Este é, na verdade, um exemplo prático e contundente do apagamento historiográfico: o teórico do racismo científico é canonizado em leituras padrão em inglês, enquanto o pioneiro que o contestou permanece invisibilizado.

Como vemos, o ato contínuo de (re)apresentar Manuel Querino é um trabalho de Sísifo.

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