O Precursor das Ações Afirmativas

Marcos Rodrigues

Mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA

ORCID: 0000 0002-6662-2350

Resenha do livro GLEDHILL, Sabrina (org.). (Re)apresentando Manuel Querino – 1851/1923: um pioneiro afro-brasileiro nos tempos do racismo científico. Salvador: Sagga editora, 2021. 194 p.

Palavras-chave: Ações afirmativas; Manuel Querino; Racismo científico.

O livro organizado pela pesquisadora Sabrina Gledhill nos apresenta ou reapresenta a trajetória do intelectual e ativista baiano Manuel Querino (1851-1923), um pioneiro na construção do discurso civilizatório afro-brasileiro, nos tempos do racismo científico, conforme anunciado na capa. Nascido em Santo Amaro (BA), ainda no período colonial, Querino certamente pode ser considerado o precursor da luta por ações afirmativas da população negra, com base nos lugares que ocupou como educador, sindicalista, político, etnólogo e escritor.

Era uma época em que a teoria evolucionista fazia valer a classificação da inferioridade e a perspectiva de desaparecimento da população negra, em favor da imigração europeia e da cultura do branqueamento, e então surgia o pioneiro em várias linhas de frente como a etnologia, a antropologia da alimentação, a história da arte e a luta por ações afirmativas. São qualidades que marcam a trajetória de Manuel Querino nesse livro que também traz a participação dos autores Jorge Calmon, Eliane Nunes, Christianne Vasconcellos, Jeferson Bacelar e Carlos Dória.

Com o objetivo de apresentar uma análise biográfica em várias vertentes contra um marco de conceitos e definições em torno da negritude sob uma perspectiva evolucionista, o livro foi elaborado a partir da visão de pesquisadores(as) da política, da história, da antropologia e das ciências sociais que se debruçaram a iluminar o legado do baiano Manuel Querino. Também a coletânea resulta de um movimento articulado entre humanistas de diferentes gerações, o que certamente contribui em grande estilo para a reapresentação do personagem em foco com sua trajetória multifacetada.

A construção de um discurso implica antes em transgredir, desconstruir e selecionar o paradigma ou categoria de pensamento a ser trilhado. E essa investida de Sabrina Gledhill já vem desde o livro anterior Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino e Booker Washington (Edufba, 2020) e de sua participação em outras coletâneas, na intenção de tornar visíveis intelectuais ativistas do mundo da diáspora africana. Agora, de modo muito feliz, escreve e anexa narrativas de autores convidados para fazer valer o lugar de Manuel Querino como sujeito político do seu tempo, cujo protagonismo deve ser revisto.

Mas, que lugar ocupa Manuel Querino na história da cultura baiana? Certamente, nesse livro são várias pistas a seguir como resposta a partir do ângulo de cada autor. Em cada área de atuação, uma construção que deixou sua marca em nossos dias. Ainda que não tenha passado pela condição de escravizado, Querino parece ter construído um discurso público sobre a perspectiva do negro em uma sociedade que se transformava ao perder seu ponto de sustentação econômica, a cultura do cativeiro.

Brasilianista inglesa, tradutora premiada, com estudos realizados nos Estados Unidos e no Brasil, a pesquisadora Sabrina Gledhill revela no texto de apresentação que seu interesse por Querino começou na primeira metade dos anos 1980, quando buscava um tema de pesquisa na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA). Ao expor as referências de Manuel Querino, concentra na sua bagagem um olhar atento sobre o percurso de um homem controverso que viveu durante a última fase da era colonial e, ao lado dos desdobramentos da escravidão, no início do século 20. A autora define Querino como uma voz solitária, “um negro que conquistou um lugar no meio da elite branca, tentou utilizar sua posição para divulgar a mensagem que poucas pessoas de sua cor podiam ou estavam dispostas a proferir”. (p. 18)

O volume tem prefácio do historiador e professor Jaime Nascimento, que chama atenção para importância de Manuel Querino, cujo caminho seria improvável para um negro do século 19. E mais, com muita propriedade, o evidencia como antropólogo autodidata no seu lugar de precursor dos estudos civilizatórios da cultura africana na formação social brasileira e um dos principais pesquisadores da História da Bahia.

Poucos brasileiros ocuparam uma carreira ilustrada como Manuel Querino, agora reapresentado a todos aqueles que transitam na área dos estudos sociais e ainda o estranham quando mencionado. A importância de revitalizar esta memória advém de ser pioneiro na contramão do racismo científico ditado pela medicina legal, de reforçar a influência africana na história nacional, de inaugurar a historicidade da arte na Bahia e as pesquisas em antropologia da alimentação.

Dos oito capítulos que compõem o volume, dois deles se destacam. O capítulo 5, com abordagem sobre o uso de fotografias no estudo etnográfico, é um reflexo direto sobre essa discussão atualmente muito em curso na antropologia. A autora Christianne Vasconcellos expõe a antropológica de Manuel Querino seus estudos etnográficos sobre os africanos na Bahia com um texto que seduz o leitor a retomar o caminho de (re)conhece-lo como via de entendimento do nosso processo histórico.

O capitulo 7 é a chave para entender a origem do que hoje se chama de comida baiana. Os pesquisadores convidados Jeferson Bacelar e Carlos Dória revelam o pioneiro dos estudos da culinária baiana, segmento que deu corpo à antropologia da alimentação. Desse modo, vale lembrar que o produto turístico difundido hoje em grande escala veio das investigações feitas por Manuel Querino em tempos sombrios marcados pelo rigor da cultura eurocêntrica de um mercado intelectual colonizador.

Após uma leitura como essa, não é difícil refletir como a diáspora africana nas Américas e no Caribe esconde milhares de valores humanos que lutaram e foram protagonistas na superação da adversidade e pela eficácia das ações afirmativas pós-escravidão. O discurso civilizatório formador do nosso pensamento sempre a partir do europeu colonizador, com o reforço tentacular do racismo científico, já mostrava suas contradições desde então. Daí, o mérito das narrativas aqui reunidas ao mergulharem na contramão da invisibilidade e trazer à luz o perfil de Manuel Querino.

A coletânea parece atingir um objetivo importante. Deixa no leitor a vontade de buscar ou rever a obra de Manuel Querino e adotá-lo entre as principais fontes em discussões ou pesquisas que estarão por vir quando o assunto for cultura baiana. A objetividade das narrativas conduz a uma esfera do conhecimento até então negligenciada pelo pensamento canônico dos “clássicos” intelectuais de outrora. Com isso, as gerações recentes agradecem essa atitude de reparação em favor de um legado histórico e cultural pulsante, sabidamente ignorado.

Garimpar a vida de Querino certamente não sugere muita facilidade para um trabalho de caráter científico. As fontes consultadas e os autores convidados para essa publicação sinalizam a extensão da atividade em torno de um personagem que abriu caminho dos estudos etnológicos, históricos e artísticos voltados à africanidade e suas vertentes na diáspora. Por isso, o livro também demonstra ser um exemplo de responsabilidade intelectual.

Artigo sobre as obras pioneiras de Querino

Recentemente, um artigo meu saiu na revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – IGHB. O artigo apresenta e analisa as obras do intelectual afro-brasileiro Manuel Querino (1851-1923) consideradas pioneiras nas áreas de História da Arte, Antropologia da Alimentação, Estudos Étnicos e Africanos. Segue o link para a edição Jan/Dez 2021 da revista:

: Artigo sobre as obras pioneiras de Querino

(Re)introducing Manuel Querino

I recently published an anthology entitled Manuel Querino (1851-1923): An Afro-Brazilian Pioneer in the Age of Scientific Racism. All but one of the chapters were originally published in Portuguese and are available in English for the first time. They cover several aspects of Querino’s life and career – leaving enough topics for at least a revised and expanded edition. The facets included in this publication are his work as a politician and militant journalist, art historian, Black vindicationist (he was the first Afro-Brazilian scholar to underscore the positive contribution of Africans and their descendants to Brazilian society), ethnologist and food scholar. For more information on the e-book, paperback and hardback editions, visit https://www.amazon.co.uk/dp/B097N4F8CB/ref=cm_sw_r_tw_dp_RS4D5PVVYJYDMW0B34CS via @AmazonUK or search for Gledhill Querino on your country’s Amazon website.

Lançamento(s) do livro Travessias – agora da edição impressa


O mês de novembro – mês da Consciência Negra no Brasil – foi marcado com uma série de lives e entrevistas divulgando o lançamento de uma nova edição do livro Travessias no Atlântico Negro: reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino. A edição eletrônica foi lançada em 2018 pela Editora Funmilayo Publishing e está disponível pelo Kindle (na Amazon). Desta vez, as comemorações foram em torno da edição impressa, pelo selo da Edufba, a editora da Universidade Fedral da Bahia, onde a autora fez o doutorado em Estudos Étnicos e Africanos e defendeu a tese que deu origem ao livro em 2014.

Acesse o blog sobre Manuel Querino – http://mrquerino.blogspot.com/ – e confira os vídeos postados.

Caso queira adquirir o livro, pode ser comprado no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, na Praça da Piedade e na Livraria LDM em Salvador-BA. Também está disponível online, pela Amazon.com.br https://www.amazon.com.br/dp/6556300055/ref=cm_sw_r_tw_dp_x_bYF0FbP5NYACF via @amazonBR e a Estante Virtual. Boa leitura!

Promoção de livro sobre Manuel Querino e Booker Washington

O livro Travessias no Atlântico Negro, reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino está disponível pelo preço promocional de R$4,99 até amanhã (3 de setembro de 2018). O valor normal é R$34,99. Promoção válida apenas no Brasil, nos sites da Amazon – http://www.amazon.com.br (Kindle) – e da Livraria Cultura – http://www.livrariacultura.com.br (Kobo)TAN capa final small

De/visualizing Blackness

mulher-negra-devassa

Condemned as racist and exploitative of black women, this controversial advert for Devassa dark beer did something far worse

Last week, I attended a thought-provoking seminar, ‘Visualizing Blackness in Latin America & the Caribbean, 16th-19th Centuries‘, held on 29 & 30 May 2018, and organised by the Institute of Latin American Studies, School of Advanced Study, London. Among many other interesting topics, in her keynote lecture, “Colour and Undertones: On Black Subjects in Latin-American Visual Culture”, Dr Tamara J. Walker mentioned an advert for Devassa dark beer which sparked controversy in Brazil a few years ago. In 2012, the National Council for Self-Regulation in Advertising (Conar) determined that the makers of Devassa – a product line that also includes a ‘blonde’ beer, and whose name is defined as ‘woman devoid of modesty or morals with regard to sex’, which could be translated as ‘slag’, ‘slut’ or worse – had to change the advert, as it was considered racist, a crime under Brazilian law.

When I saw the advert again after all these years, something else struck me about the image. Everyone at the seminar agreed that the woman portrayed is lovely and sexy in the old-fashioned pin-up style of glamour. The racism is more to be found in the text, which reads: ‘you can tell a true black woman [dark beer] by her [its] body’ (as the word for beer is feminine in Portuguese, this sort of double entendre is easily conveyed).

The main problem I saw with the image was that, according to Brazilian racial categories, the woman portrayed is not ‘black’ at all, but the classic sexualised and romanticised ‘mulata’ (once known in English as a ‘mulattress’). In other words, the text of the advert is not only racist and sexist, but the image has failed to represent black women as presumably intended – thereby effectively de/visualizing them and deleting them from the picture.

I had some difficulty explaining this to an African-American scholar, presumably because the one-drop rule in the US has led to greater solidarity and unified self-identification among a relatively small portion of the population, based on ancestry and the common experience of historical enslavement (as I argue in my PhD thesis, President Obama was only legitimised as a representative of the African-American community by his wife, Michelle, as his father came directly from Africa and therefore did not share that experience of historical enslavement), whereas in Brazil, African ancestry is so widespread that many people who would be considered black elsewhere see themselves as white or ‘brown’ (pardo). As a result, ‘blackness’ is based on appearance and placed at one extreme of a continuum, the other end of which is ‘whiteness’. There are many shades and categories in between.

In Brazil, ‘race’ is identified not through ancestry but through markers – particularly skin colour, features and hair. Although she has full lips – de rigueur among models and actresses of any ethnicity nowadays – the features of the woman in the advert are European and considered attractive according to the white racialist aesthetic, particularly her nose. Even among the very few black women who make it into the modelling world in Brazil, there is a distinct preference for those with a ‘nariz afinada’ – an aquiline or Roman nose. This is nothing new, as racialist discourse has long given preference to such noses, seeing them as superior to ‘snub’ or ‘broad/flat’ breathing apparatus (N.B. by way of full disclosure, I have a ‘snub’ or ‘retroussé’ nose, and although, as far as I am aware, I am ‘white’, a white supremacist once told me that I could be black, based on the shape of my nose and lips).

As I pointed out to my African-American interlocutor – and I hope I made clear then and now – I am not denying that the fictional woman portrayed could, and probably would, self-identify as black in Brazil. I am not negating her self-perceived Blackness. The problem with the picture is that, to be truly ‘black’ by Brazilian lights – especially in Bahia – she should look more like Zezé Mota or Taís Araújo. Better yet, to mention a more familiar example for non-Brazilians, she should strongly resemble Lupita Nyong’o.

Apologies, and moving on

I apologize for the last few posts, publicising my new e-book in Portuguese. I am working on an English translation, adapted for a non-Brazilian readership. I have changed the name of this blog to encompass other topics that might arise. I have recently noticed, for example, that the debate on the supposed Booker T. Washington/W.E.B. Du Bois dichotomy is still alive and well, and intend to weigh into it shortly. Watch this space!

Novo e-book no prelo

Neste livro, Sabrina Gledhill analisa as trajetórias e táticas antirracialistas de Booker T. Washington (1856/1915) e Manuel Raymundo Querino (1851/1923), dentro do contexto do Atlântico Negro. Apesar do prestígio que desfrutaram em vida, suas imagens foram dilapidadas após a morte: Washington com a mácula de “comodista” e até “traidor da raça”; e Querino com a imagem de um “humilde professor negro” de parcos poderes intelectuais. A realidade, como os dois educadores negros que são o enfoque deste trabalho, foi muito mais complexa.

Querino foi uma figTAN capa final smallura multifacetada: pintor-decorador, artista, abolicionista, jornalista, líder operário, político, professor de desenho industrial e pesquisador, fundador da historiografia da arte baiana, defensor dos terreiros de candomblé, sócio fundador do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, inspiração para Pedro Archanjo (protagonista de Tenda dos Milagres) e o primeiro intelectual afrobrasileiro a destacar a contribuição do africano à civilização brasileira.

Educador, orador e conselheiro de presidentes dos Estados Unidos, Washington nasceu escravo e chegou a ser considerado o “negro mais famoso do mundo”. Após a Emancipação, trabalhou como zelador para custear seus estudos no Instituto Hampton, fundou o Instituto Normal e Industrial Tuskegee e tornou-se o líder da “nação negra” nos Estados Unidos, tendo como seu maior rival o intelectual negro W.E.B. Du Bois.

Depois de apresentar o contexto em que viveram e traçar as interconexões entre suas realidades, Gledhill analisa suas trajetórias durante a vida e após a morte. Mostra como Manuel Querino poderia ter acesso a informações detalhadas sobre a vida e obra de Washington décadas antes que sua autobiografia mais conhecida, Up from Slavery, fosse lançada no Brasil, traduzida por Graciliano Ramos. Paul Gilroy, o idealizador do conceito do Atlântico Negro, usa a metáfora de navios atravessando o oceano. Gledhill mostra que as “travessias” também poderiam ser realizadas por meio de traduções e da telegrafia.